Pensando fora do box

(Julio D'Paula)

Recriação das Mil Milhas incomoda e é bem-vinda

Prova mais tradicional do automobilismo brasileiro e criada na década de 1950 pelos saudosos Eloy Gogliano e Wilson Fittipaldi, as Mil Milhas Brasileiras tem uma história que faz jus à frase que decora o troféu da vitória: ”Glória imortal aos vencedores”. Recriada este ano pela promotora e organizadora Elione Queiroz, uma paulista há tempos radicada no Planalto Central, ela renasceu com novo nome e deixou claro uma outra mensagem: enquanto os praticantes do esporte não deixarem de olhar para o próprio umbigo e entenderem que há de se trabalhar na mesma direção, o renascimento do automobilismo nacional tem tudo para perecer em glória mortal.

Os vencedores, a partir da esquerda: Esio Vichiese, Renan Guerra e Stuart Turvey (Cláudio Kolodziej)

Bastante conhecida por seus serviços de logística e apoio a pilotos e equipes, Elione Queiroz enxergou em passado recente o que poucos viram e decidiu arrematar os direitos sobre nomes de provas tradicionais, como os 1.000 KM de Brasília, 12 Horas de Goiânia e a cereja desse bolo, as Mil Milhas Brasileiras. Todos eles estavam com seus direitos caducados e órfãos de algum proprietário. Isso provocou ciúmes em muitos, a começar pelo atual presidente do Centauro Motor Clube, José Roberto Beilstrein, um dos primeiros a ir contra a iniciativa de Queiroz. De certa forma o herdeiro do clube fundado por Gogliano nos anos 1950, Beilstrein há anos deixou de ter qualquer atividade relacionada com esse evento, mas insistiu que era o dono do nome e que ninguém, exceto ele, poderia organizar ou promover essa competição. Tornou-se folclórica, para não dizer lastimável, suas declarações regulares que as Mil Milhas Brasileiras voltariam a acontecer “este ano”.

Elione Queiroz e o novo troféu da prova recriada com persistência (Cláudio Kolodziej)

Queiroz não se abalou, continuou trabalhando à sua maneira e há de se louvar sua resiliência e perseverança diante de obstáculos que enfrentou. Ao batalhar pelo renascimento de uma prova histórica ela foi obrigada a devotar sua energia em tantas frentes e, consequentemente, descuidando de outras a ponto de adotar um formato privilegiou muitos e convenceu poucos. Longe de critica-la por isso, deve-se entender esse inconveniente como fruto de sua pouca experiência como organizadora de eventos desse porte. Perto da realidade dos fatos, ela enfrentou a resistência nociva do circo do Campeonato Brasileiro de Endurance, para quem o regulamento da prova parece ter sido pensado, e que recusou participar do evento.

O Ginetta G55 dos vencedores foi protagonista durante as 11 horas de corrida (Julio D’Paula)

Pode parecer fácil refletir sobre o desenrolar do evento vencido pelo trio formado por Renan Guerra, Esio Vischiese e Stuart Turvey a bordo de um Ginetta G55. No entanto é claramente difícil entender a razão pela qual muitos que pediam pela volta das Mil Milhas não apoiaram a iniciativa. Culpa da exigência de se usar pneus slick, equipamento muito mais caro que os pneus radiais comuns? Abrir demasiadas categorias no intuito de premiar muitos vencedores? O saldo dessa empreitada é positivo quando se nota que há gente disposta a fazer algo pelo esporte dentro dos autódromos e fora de grupos ativos apenas em mídias sociais. Elione Queiroz merece parabéns pela coragem de enfrentar tantos adversários e aqueles que ainda acreditam no automobilismo brasileiro agradecem por tanta bravura. Juntos, já olham para janeiro de 2021, quando a Mil Milhas do Brasil volta a acontecer em Interlagos no dia 25 de janeiro.

9 Comentários

  1. Foi lá e fez, e deu oportunidade a todos que divulgassem na Fox. Não participaram porque não quiseram. Inscrições a 5 mil antes da semana da corrida e 7 mil na semana da corrida não deveriam espantar ninguém que canta de galo.
    Ela já consegui a data de 25 de Janeiro de 2021, espero que as eternas Cassandras deixem de falar bobagem e se inscrevam na do ano que vem, Tem um monte de Omegas, Socks, Spyders e outros protótipos abandonados e pegando poeira.

    • Egrégio Grão-Vizir, prazer em vê-lo por aqui.

      Torço para que as cassandras se libertem dos seus respectivos karmas e mostrem que são do ramo.

      25 de janeiro de 2025 está logo ali…

      Grande abraço.

      WG

    • Obrigado pelo prestígio de sua leitura e do seu comentário, Ricardo Talarico.
      A Elione Queiroz realmente merece os parabéns.
      Apareça sempre neste espaço, amigo!
      WG

  2. Se por um lado é com muita satisfação que o aficionado pelo automobilismo, vê essa nova oportunidade de rever e participar de uma das provas mais tradicionais do Brasil, por outro lado fica o gosto amargo por notar o pouco interesse que a corrida provocou exatamente no meio onde mais se ouviam queixas pela ausência de provas como as Mil Milhas. Acredito que justamente por abrir um leque para a participação de varias categorias, deveríamos ter um maior interesse e um bom numero de inscritos, coisa que não aconteceu. Foi deprimente constatar que uma corrida nos moldes das Mil Milhas tivesse um grid tão decepcionante com apenas 12 carros. E com previsão de que dificilmente a prova chegasse ao seu final, com o numero de voltas suficientes para completar a milhagem estabelecida. Politicagem, ciumes, invejas, piquinhas à parte,a torcida de quem realmente gosta de automobilismo é para que no ano que vem, tudo seja feito com mais antecedência, promovendo melhor a corrida, divulgando nos lugares certos, nos grupos certos de facebook. Que a Dona Elione se cerque de gente competente, do ramo, do meio automobilista, para termos uma corrida de verdade, no feriado dedicado a São Paulo, Patria Mãe das verdadeiras Mil Milhas.

    • Sig. Nardini,

      Verdade que o grid foi fraco, mas é muito mais válido apoiar a iniciativa e agir para que esse empurrão faça o automobilismo brasileiro pegar no tranco.

      Auguri!

      WG

  3. O que posso comentar sobre esse artigo do Beegola é que ele acertou na veia. Aí está escrito o que, de fato, aconteceu. O evento teve um esvaziamento provocado por pessoas do meio, que, não se sabe exatamente o por quê, mas agiram contra a corrida, contra o automobilismo, contra o bom senso e contra a ética.
    Feito o primeiro comentário, vamos ao próximo. A prova teve um grid ralo, mas com carros de muita qualidade. A festa foi simples, mas foi digna e muito bem produzida. Houve criticas, claro, mas na maioria absoluta construtivas, de pessoas que se interessam em somar e não dividir, e isso é que vale no fim da conta.
    Eu assisti a vitória de uma MULHER que arregaçou a manga e foi mais determinada do que muitos promotores em atividade no Brasil. Foi uma águia com as garras afiadas, foi uma leoa com a fúria e determinação em alto grau. Essa MULHER, chamada Elione Queiroz, merece todos os aplausos do público do automobilismo brasileiro. Sua equipe foi nota 10 com louvor. Aliás, um time que estava cheirando a naftalina pura. Encontrei um monte de parceiros das antigas, uma turma que na hora do pega pra capar, está pronta e disposta a fazer acontecer. E foi assim que a Mil Milhas do Brasil 2020 aconteceu. Na marra, contra-gosto e contrariando interesses de uns desavisados que não entenderam o propósito, nem vão entender, pois só olham para os próprios umbigos. Gente cega, tapada, egoísta que não merecem nem vaias.
    Fica aqui o meu registro de pura e total satisfação de ter feito parte do time que botou o evento de pé. Mais uma narração para minha listinha de trabalhos realizados no e pelo automobilismo do Brasil.
    Wagner “Beegola” Gonzalez, seu texto conta tudo, na melhor redação, ao seu estilo. Aqui, eu aproveitei e fiz meu desabafo contra a falta de ética e esportividade dos que remaram contra.
    Obrigado Elione, você foi demais. Vamos para as próximas. Conte comigo, sempre.

    • Grande Kaká,

      Obrigado pelo prestígio do seu comentário.

      Podia ter sido uma festa mais populosa, mas certamente não teria sido melhor organizada, o que demonstra a capadidade da Elione, do Roberto Barranco e da própria FASP, que peitou a disputa de datas e apoiou a paulista de Goiás. Quem esteve lá esteve porque é raiz. Um exemplo do clima que reinou pode ser o descanso do meu celular: sabe lá o que é ficar umas oito horas sem usa-lo, de tanto papo agradável com amigos e companeiros de longa data?

      Apareça mais, este espaço também é seu.

      WG

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