GRAHAM HILL, O REI DE TRÊS COROAS

(Ilustração Wagner Gonzalez)

Único piloto a vencer na F-1, Indy e Le Mans
Londrino completaria hoje 88 anos
Venceu 5 GPs em Mônaco

Em Nürburgring, 1965, ao volante da Ferrari 275 P2 da equipe Maranello Concessionaires (Foto Atelie Hob)

O capacete azul escuro marcado com remos brancos, o bigode fino e os cabelos sempre bem cuidados ajudaram a consolidar a fama de Normam Graham Hill como um piloto bem sucedido. Sem dúvida, ele foi um dos grandes de todos os tempos e o único a ter vencido nos três circuitos mais conhecidos do mundo: Indianapolis (1966) Le Mans (1972) e Mônaco (1963, 1964, 1965, 1968 e 1969). Mais, venceu dois títulos mundiais na F-1 (1962 e 1968) e competiu em uma variedade enorme de carros, categorias e equipes. Enfim, foi o verdadeiro símbolo e uma época onde o romantismo e a joie du vivre eram valores levados a sério.

Acidente no GP de Portugal de 1958, circuito do Porto, com Lotus 16 Climax (Foto Primotipo.com)

Vindo de família de classe média baixa, Graham Hill trabalhou na Smiths Instruments e serviu à Marinha britânica antes de se tornar mecânico de Colin Chapman e se arriscar nos famosos e frágeis carros do seu conterrâneo. Ao perceber que seu futuro estaria em outra equipe que não a Lotus, Hill transferiu-se para a BRM e lá finalmente se impôs como vencedor de corridas e campeão mundial, título que obteve pela primeira vez em 1962. A decadência da British Racing Motors e um convite de Chapman o levaram de volta à casa de Ketteringham Hall, imponente propriedade em Hethel, Norwich e segunda sede da Lotus. A primeira foi a garagem ao lado do pub administrado pelo sogro de Chapman, em um subúrbio de Londres.

Sua última vitória na F-1 foi a quinta em Mônaco (1969) com um Lotus 49B Ford (Foto fastformula.wordpress)

Foi a bordo de um Lotus 49 que Hill viveu seus últimos momentos de frustrações e glória na F-1: após uma temporada em que não completou nenhum GP, em 1967, ele venceu os GPs da Espanha, Mônaco e México de 1968 e foi campeão mundial pela segunda vez. Mais importante do que isso, ele conseguiu levantar a equipe Lotus após a trágica morte de Jim Clark num acidente durante uma prova de F-2 em Hockenheim, Alemanha, em abril de 1968.

Em Interlagos, com Camillo Christófaro (Foto José Antonio Peinado)

Sempre amistoso, em uma prova de F2 em Interlagos, em 1971 trocou algumas palavras com Camillo Christófaro nos boxes do autódromo paulistano, encontro registrado pelo ex-piloto José Antônio Peinado. Nessa temporada o inglês liderou a equipe Rondel Racing, que inscreveu dois Brabham BT36 para o inglês e para o francês Bob Wolleck. Foram construídos 10 unidades desse chassi, o último F-2 projetado por Ron Tauranac. A Rondel era administrada por Ron Dennis e Neil Trundle, que na temporada seguinte adotou o modelo BT-38.

O traçado de Hill na curva do Pinheirinho era único: volta após volta ele contornava a entrada desse trecho colado ao lado interno da pista, aproveitando a redução a velocidade para completar uma das curvas mais lentos do antigo e clássico traçado. Veja trechos dessa corrida clicando aqui, filme produzido pelo colaborador de Motores Clássicos Pedro Martins.

A vitória em Le Mans 1972, com Matra Simca MS 670, em dupla com Henri Pescarolo (Foto SportsCar TV)

Famoso por conseguir cinco vitórias em Mônaco, marca só superada por Ayrton Senna , Graham Hill venceu com autoridade a edição 1972 das 24 Horas de Le Mans, cmpartindo um Matra Simca MS670 com Henri Pescarolo. Já seu triunfo em Indianapolis foi marcado por certa polêmica em uma corrida marcada pelo acidente que eliminou onze carros – ou seja, um terço do grid -, logo na largada. Entre os estreantes que conseguiram uma das 33 vagas do grid estavam Hill e Jackie Stewart, inscritos para pilotar os Lola T-90 Ford da equipe de John Mecom Jr. O escocês foi o grande destaque da prova ao liderar boa parte da prova. Faltando 10 voltas para o final da corrida uma pane de lubrificação forçou seu abandono e Hill herdou a liderança.

O Lola T90 Ford, vitorioso em Indy 1966. A Lotus tentou ganhar a corrida no tapetão (Foto Indy.com)

Andy Granatelli, que patrocinou a equipe Lotus nessa prova, protestou contra o resultado alegando que Jim Clark estava uma volta à frente de Hill. Uma consulta aos mapas de cronometragem feitos, ambos manualmente, pelos organizadores da prova e uma rádio local, confirmaram a vitória de Graham. O assunto, porém, ainda rende boas discussões nas rodinhas de Indianapolis.

Sua última temporada completa foi com esta Lola T370-Ford, projeto de Andy Smallman (Foto F1-History.com)

No início dos anos 1970 Graham Hill sentiu que chegava a hora de pendurar o capacete que homenageava o London Rowing Club, agremiaçãoque ele defendeu em provas de remo: sem convites de grandes equipes, montou sua própria escuderia, incialmente com um chassi da Shadow, posteriormente com carros fabricados pela Lola e finalmente com o Hill GH01.

O GH01 (Andy Smallman) estreou em Mônaco, 1975. Hill não conseguiu lugar no grid (Foto F1-History.com)

Uma série de acidentes afetaram suas pernas e a decisão de gerenciar a carreira de Tony Brise (jovem inglês em quem ele apostava alto) deu novo ânimo ao bi-campeão mundial, um personagem que era figurinha carimbada em vários programas da TV inglesa – chegou a ser tema em uma apresentação do grupo Monty Python – e teve alguma atividade no cinema: participou ativamente do clássico Grand Prix e fez uma ponta como piloto de helicóptero em Caravana para Vaccarés (Geoffrey Reeve, 1974).

Documento da investigação sobre o acidente aéreo com o Piper N6845Y (Fotos AAIB-UK)

Além de helicópteros, ele também pilotava aviões. No final de novembro de 1975 Hill organizou um teste em Paul Ricard visando desenvolver o carro para a temporada seguinte. Foi sua despedida das pistas: ao retornar para Londres pilotando seu Piper PA23-250 Aztec, a forte neblina nos aeroportos de Gatwick e Heathrow levou-o a tentar aterrissar em Esltree, ao norte de Londres. Após chocar-se contra as árvores de um campo de golfe de Arkley, o pequeno bimotor caiu e provocou a morte de todos os ocupantes: Hill, Tony Brise, o projetista Andy Smallman, o chefe de equipe Ray Brimble e os mecânicos Tony Alcock e Terry Richards.

McLaren (E), Moss, Brooks, Hill, Bonnier, von Trips e o pequeno Damon Hill (Arquivo)

O acidente traria outras complicações para a família de Hill: a esposa Betty e os filhos Brigitte, Samantha e Damon. O avião ainda ostentava a matrícula norte-americana (N6645Y), não estava segurado e sua licença de piloto estava vencida. As indenizações cobradas pelos familiares de algumas das vítimas causou prejuízos financeiros aos seus herdeiros; Damon, que em 1996 se tornaria o primeiro filho de um campeão mundial de F-1 a repetir a conquista do pai, chegou a trabalhar de motoboy em Londres para ajudar nas despesas de casa.

Hill se preparando para treinar em Indianapolis no ano de sua estreia no Brickyard, 1966 (Foto Pinterest)

 

Resumo:
Nascimento: 15/2/1929, Hampstead, Londres, Inglaterra.
Morte: 29/11/1975, acidente aéreo em Arkley, Hertforshire, Inglaterra.
F1 – 176 GPs, 2 títulos mundiais (1962/68), 13 pole-positions, 14 vitórias, 10 voltas mais rápidas.
Pilotou para as equipes Lotus, BRM, Brabham, Rob Walker e Hill.
GTs e Protótipos – Defendeu as equipes Alan Mann Racing, Aston Martin, BRM, Maranello Concessionaires, Matra, NART e Porsche. Venceu Le Mans em 1972
Indy – Três participações com carros Lola (1966) e Lotus (1967/8), 1 vitória (1966)

14 Comentários

  1. Beegola , muito jóia este seu site ; tinha visto há algumas semanas , curto muito os artigos com histórias do esporte , e notei especialmente o capricho na escolha das imagens que as acompanham, para mim sempre inéditas e precisas (data e lugar) . Tudo muito bom , parabéns , valeu.
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    uma rápida anedota que li uma vez sobre a vitória de Hill na Indy / 66 : Clark chegou pra ele e comentou : “sabe Graham , tem gente dizendo que você tava uma volta atrás … ” ao que ele apenas retrucou : ” sorry mate, but I drank the milk.”

    grande abraço

    • Fernandinho,

      Obrigado pelo incentivo e pelos comentários. A anedota entre o Clark e o Hill reflete bem o clima da época e o fino humor inglês. Que tal mostrarmos seu trabalho aqui neste Motores Clássicos?

      Nojanga! (só os iniciados na cachaça Finger Hut entenderão…)

      • Ótima idéia ! A imensa maioria de minhas fotos não foram publicadas ainda — p. ex. tem material feito no Goodwood Festival of Speed , em 97 e 99 .
        Tá tudo guardado numa armário e em HDs , vou iniciar uma ressureição disso .

        Nojanga ! ( não estou bem lembrado do que se trata , mas desconfio tenha a ver com aquele casal maluco-rural e seu alambique em Sta. Cruz do Sul ).

  2. Graham Hill não tinha o talento de um Jim Clark, Dan Gurney ou Jackie Stewart. Mas compensava com muito trabalho. Se via que não dava para acompanhar os ponteiros sempre ficava a uma distância que pudesse dar o bote se algo acontecesse como foi essa prova da Indy ,1966. Uma correção. Em 1967 Hill terminou duas provas em 2º lugar. Mônaco e Watkins Glen.No mais como sempre um grande texto Wagner. Obrigado.

    • Big Ronnie,

      Dos quatro pilotos que você mencionou, Clark era considerado o maior da sua época e só temia um, Dan Gurney. Isso corrobora seu sábio ponto de vista sobre as habilidades de Norman Graham: fazia muito o que gostava de fazer e usufruia com classe e estilo a faculdade de saber o melhor com o que tinha em mãos. Sobre seus dois segundos lugares, aqui vai uma curiosidade: foram conquistados em pistas onde ele se sempre se destacava: venceu cinco vezes em Mônaco e três em Watkins Glen.

  3. E nao e interessante como a vitoria em Le Mans de Graham Hill (ao lado do Henri Pescarolo) repercute muito depois de tantos anos? As vezes a gente tem impressao que o feito pelo trio Hill-Pescarolo-Matra nas 24Horas foi maior do que todas as oito (?), nove (?), dez (?) vitorias conseguidas por tres (?) ou quatro (?) pilotos que detem os recordes de 1os. lugares em Le Mans : bobeou e a gente nem lembra o nome deles.

    • Catta WEC,

      Acredito que o fato da vitória do Hill em Le Mans 1972 repercuta mais que as seguidas vitórias de Jaguar, Ferrari, Porsche e AUdi por uma questão simples: esse triunfo está associado ao fato de ele ter sido o único piloto a vencer em Indianapolis, Mônaco e Sarthe e, de quebra, ter dois títulos mundiais. Ou seja, é algo único e, portanto, fica muito mais fácil de gravar na memória do que o nome dos tantos pilotos que venceram a clássica 24 horas francesa.

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