CARROS, BLUES E MUITO VINHO

Apreciar e descobrir vinhos combina com relaxamento

Não deixe de lado as cachaças e as cervejas

Como fazer seu kit primeira viagem

Watkins Glen, na região dos Finger Lakers, tem muito mais que uma pista de corrida (Foto Wagner Gonzalez)

Muitos dos poucos que me conhecem pessoalmente sabem que, além de carros e blues, tenho uma paixão hedonista por vinhos. Não é de hoje que dedico uma boa parte do meu tempo livre ao estudo e pesquisa sobre o tema e, óbvio, ao consumo de garrafas de diversas origens, preços e variedades. Trata-se de uma prática que tem poucas restrições, como, por exemplo, não deixar de lado descobrir as boas cachaças brasileiras ou conhecer novas cervejas do mundo inteiro. O vinho, porém, está sempre na pole-position e já me proporcionou um retorno ao circuito de Watkins Glen só porque ali perto tem uma vinícola que se chama…Wagner Winery.

Essa paixão por vinhos nasceu meio sem querer, ainda que minha ascendência espanhola tenha, certamente, influenciado a formação de alguns pares da minha cadeia de DNA dedicados ao tema. Se durante a infância o máximo que eu e meus primos e primas contemporâneos tínhamos direito era experimentar vinho misturado com água e açúcar, minha época de faculdades – três iniciadas, uma terminada…-, criou várias oportunidades para descorchar unas tantas botellas. Verdade que a maioria absoluta das primeiras garrafas dessa época não era lá grande coisa, mas tal qual os vírus da música e das pistas, o contágio estava consumado.

Cortiça maciça, mista ou aglomerada e tampas metálicas represam boas descobertas  (Foto Wagner Gonzalez)

O grande barato de tomar um vinho é tão simples quanto isto: desfruta-lo. Degustar, apreciar e compartir só aumentam esse prazer. Tudo bem que vez ou outra somos levados a encarar aquela taça, preferencialmente de cristal, em voo solo, mas a vida exige alguns sacrifícios. E aqui me lembro de uma pergunta recorrente dos meus amigos: como aprender a degustar e apreciar esse fermentado de uvas tão peculiar e tão agregador? A resposta é simples: abra a garrafa, coloque um dedo de vinho na taça e vamos em frente, com calma e tranquilidade.

Isso não quer dizer que pode ser feito assim, sem mais nem menos: um pouco de ritual vai bem. Afinal, ninguém consegue tocar um bom blues empunhando uma Gibson Les Paul se não sentir do fundo da alma aqueles famosos 12 compassos preenchidos por acordes de A7-D7-E7 ou C7-F7-G7…

Não esqueço um trabalho que desenvolvi junto com meu amigo e parceiro Ivan “Artéria Design” Nóbrega ao criar uma ficha de degustação para um evento da equipe Officer ProGP de Stock Car: exploramos uma analogia com o acerto básico de um carro de corrida. A proposta deu tão certo que a ação realizada com a colaboração da Casa do Porto se estendeu por três horas além das duas inicialmente previstas. Ainda tenho essa ficha de degustação guardada, só não sei aonde…

Ansioso por fazer um treino livre no circuito dos vinhos? Passe no supermercado de sua preferência e monte o kit primeira viagem: escolha três, no máximo quatro garrafas de um mesmo varietal, todos de preços e safras semelhantes; varietal é aquele vinho feito com 100 % de uma mesma uva, tipo Cabernet Sauvignon, Carménère, Chardonnay, para ficar na mesma letra e nas opções mais comuns do mercado brasileiro. Safra é o ano da colheita da uva que agora chega às suas mãos dentro das garrafas que você escolheu. Uma boa dica: vinhos decentes, daqueles para o dia a dia e sem grandes pretensões, costumam custar, em São Paulo, a partir de R$ 30. Existem alguns bebíveis mais baratos (como o Chilano, vendido no supermercado Mambo) mas preços abaixo dessa referência podem ficar na memória por motivos pouco louváveis. Aproveite para comprar um ou dois queijos, uma pera e uma maçã (ambas de casca verde), uma garrafa de água mineral sem gás, e no caminho de casa faça um pit stop na sua padaria preferida. Recomendo baguettes ou pão tipo italiano.

Vinho, queijos, pão…basta isso (Ilustração Wagner Gonzalez)

Junte sua turma levando em consideração que em uma degustação você não vai beber muito, assim quatro a seis pessoas poderão desfrutar dessa noitada sem maiores problemas. Nessa fase de descobrir os segredos de cada garrafa sirva, no máximo, um dedo de vinho em cada taça e siga as próximas instruções. A cada gole, anote numa folha de papel (tá bom, também pode ser no seu smart phone, satisfeito/a?) as sensações que você sentiu a cada rodada: cor, aroma, densidade e, particularmente, o tempo que cada exemplar evoluiu na sua boca. Se você contou até 10, bom, chegou aos 15 ótimo, passou daí, ajoelhe-se e implore por uma dose maior…mas não agora: espere até ter experimentado os outros vinhos.

Entre um vinho e outro tome um pouco de água, coma um pedaço da pão ou de fruta, tome outro gole de água: isso vai melhorar sua capacidade de curtir o próximo vinho. Lave ou enxague sua taça – trocar é o ideal, mas ninguém nunca morreu por ignorar este detalhe -, e comece tudo de novo.

Segure a taça pela haste e evite aquelas voltinhas a cada minuto e meio (Ilustração Wagner Gonzalez)

Outra coisa: aquele gesto de girar a taça em torno do próprio eixo é válido apenas para a degustação inicial. Repetir isso durante uma refeição é coisa de neo-impressionista social e que certamente vai fazer uma selfie para registrar esse momento.

Você já deve estar se perguntando o que deve avaliar no vinho, que frutas terá que descobrir, qual é o retrogosto e qual a cor do pantone que corresponde ao que você vê na taça. Calma, sem pressa, porque pressa faz mal para saúde e não há vinho que cure isso. O ponto básico é que você deve classificar tudo pelos seus próprios valores de cor, acidez, aroma: use os dados que você tem no seu HD cerebral, simples assim.

Exclamar um “tons de raspberry silvestre e notas de apricot com noz moscada” pode impressionar, mas será que nós brasileiros temos intimidade com isso? Interprete a cor e o aroma de acordo com o que você vê, preferencialmente expondo a taça contra um fundo branco e iluminado, e com o que você sente. Ao girar a taça você vai notar como a lágrima escorre pelo lado interno das paredes desse acessório importante, mas isto merece um, dois ou três capítulos à parte (como tantas outras coisas neste universo etîlico). Em resumo, preste atenção se o vinho escorre rápido ou lento, viscoso ou leve.

Repita essa voltinha e aproxime seu nariz ao interior da taça para sentir os aromas que vão fazer você lembrar de chocolate a abacaxi, de maracujá a alguma coisa tostada, ou por qualquer coisa numa lista enorme de “cheiros”. Sempre segure a taça pela haste: o calor da sua mão não deve ficar em contato com o bojo da taça, caso contrário você estará dando ao vinho o tratamento que se emprega pata tomar um bom cognac.

A cada nova degustação você descobrirá mais nuances de cada vinho (Foto Wagner Gonzalez)

Vá anotando cada observação, inclusive o que você sentir quando despejar um gole na boca e ficar, literalmente, mastigando o vinho sem engolir. Este movimento vai fazer o motivo deste artigo evoluir: lembra daquela dica de ir contando de 1 até 20 segundos enquanto o vinho se mexe na sua boca? Quanto mais tempo ele impressionar suas papilas, céu da boca, gengiva, melhor. Só depois disso você está habilitado a engolir esse líquido. Aquela história de cuspir o vinho provado é legal quando você vai degustar dez amostras e não pode correr o risco de ficar bêbado, nesta experiência básica não vai pegar muito bem fazer isso.

Após experimentar os três ou quatro varietais da noite você pode comparar suas anotações com as feitas por seus amigos e amigas de mesa e, juntos, celebrar o primeiro capítulo de uma história que não terá fim: estou por conhecer alguém que participou de uma degustação por livre e espontânea vontade e achou que isso não serve prá nada.

Saúde!

 

 

 

19 Comentários

  1. Esse é o Wagner Gonzalez, do automobilismo e dos vinhos. Parabéns, é mais do que um artigo, do que um texto… É uma aula e Dionísio e Baco agradecem…

  2. Wagner,
    Lendo esse artigo,me lembrei muito quando estava voltando do Chile e literalmente quebraram dentro de minha mala nada menos que dezesseis garrafas dos melhores vinhos que havia adquirido naquele país.A dica do Mambo é boa e certamente farei uma visita para comprovação.

  3. Querido amigo. Seguirei seus ensinamento e sairei para comprar 04 garrafas e acompanhamentos e os degustarei com minha esposa. Grande abraço e ótimo final de semana.

  4. Ótima matéria. Linguagem de fácil compreensão e dicas proveitosas. Só falta reunir a turma e colocar a teoria em prática. Saúde para todos.
    Gaspar

  5. Gostei muito da aula, grande Wagner. Espero que seja a primeira de muitas. Ficaremos Doutores Honoris Causa em vinhos! Adorei o “tons de raspberry silvestre e notas de apricot com noz moscada”… Vou aplicar essa encenação em ambientes mais chiques prá ver se cola.
    Um abraço,

  6. Bom saber que para degustar de fato um vinho pela primeira vez precisamos deixa-lo na boca por algum tempo. Nunca fiz isso, vou analisando as sensações a cada gole. Mais um motivo para beber vinho! Rsss…

    • Roaddie,

      O fato de você ter descoberto mais uma informação para degustar vinho já justifica a publicação desse texto!

      Quem sabe o Motores Clássicos organiza uma degustação um dia desses…rs

1 Trackback / Pingback

  1. ESCOLHENDO VINHO PELO TATO – www.motoresclassicos.com.br

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