Shelby não morreu

Luiz Carlos Cardoso (E) e Rogério "Mosca" Arraiol, os anfitriões da Shelby Modelismo (Beepress)

Ícone do automobilismo é cultuado por modelistas
Loja tem pistas de velocidade e off-road
Detalhismo é a marca da casa

“Dá umas quatro ou cinco voltas mais manso, sem acelerar tudo. Isso vai ajudar a aquecer os pneus e formar uma trilha”

O Jaguar E-Type, meu carro de auto-escola na pista da Shelby (Wagner Gonzalez)

A informação do engenheiro Rogério Mosca foi seguida até a terceira ou quarta volta, quando deixei o manso de lado e acabei saindo da pista… Mais duas voltas, uma parada e novas instruções, desta vez com ele ao comando do Jaguar E Type:

“Acelera aqui, quando você vê que a ponta do carro já está fora da sombra da ponte… Nesse cotovelo dá outra aliviada …aqui acelera quando o carro começa a contornar a curva…e sempre acelera progressivamente para manter o carro tracionando…”

Silas Moscardo, piloto assíduo da loja, e seu Porsche 550 (Wagner Gonzalez)

Nova parada e reassumo o comando do clássico GT. No box ao lado um Porsche 550 Spyder é conduzido com maestria por Silas Moscardo, piloto já familiarizado com os segredos desse traçado veloz. Tanto que chegou a virar abaixo de dez-ponto-zero e eu só conseguia chegar a dez-ponto-três, dez-ponto-quatro em uma ou outra volta. Menos mal que para um estreante esses tempos foram considerados muito bons. Para ajudar a melhorar minha performance Mosca ia dando mais dicas:

“Experimenta agora mudar a regulagem do freio: maior o número, maior a força que vai atuar nas rodas traseiras, as de tração… Não liga para a carroceria com algumas partes “meio soltas”,  isso ajuda a equilibrar o carro nas curvas.”

A variedade de modelos usados abrange várias categorias e épocas (Wagner Gonzalez)

A cada informação eu me sentia mais motivado a melhorar meus tempos e vivia um clima típico de autódromo dos tempos que o inoxidável Miguel Crispim – mago dos motores DKW, figura que vira e mexe aparece pelas pistas e eventos -, descreve como “uma época em que todos queriam vencer e não que você perdesse…”. Lembrei do Crispim porque num outro canto estava uma réplica do primeiro Vemag de teto rebaixado; não confundir com a antológica Mickey Mouse, encontrada em outro box. Não longe dali, o Brabham BT44 de Carlos Pace, o 72 de Emerson Fittipaldi com a icônica pintura em preto e dourado.

Não pense que tudo isso é uma viagem de quem cheirou Castrol R: como você já deduziu pelas fotos, eu vivi tudo isso na pista de autorama da Shelby, ponto de encontro paulistano de apaixonados por automobilismo. É lá que verdadeiros estudiosos do esporte realizam seus sonhos em torno de uma pista de autorama para miniaturas na escala 1/32. Trata-se de uma tribo muito singular: ali o importante é o realismo e não a velocidade pura, algo típico dos que curtem o slot race ou automobilismo de fenda com carrocerias “bolha”.

A categoria DTM é uma das preferidas pelos modelistas da Shelby (Wagner Gonzalez)

Um ambiente que remete ao capricho que Carol Shelby dedicava aos seus Cobras, Mustangs e demais criações. Nessa loja situada na Vila Mariana o que importa é a fidelidade aos detalhes dos carros. Quem se impressiona na pista de velocidade corre risco de ataque cardíaco quando descobre a pista do mezzanino: dedicada ao fora de estrada, os dois percursos tem trechos com lama, areia e curvas que exigem habilidade de um Walter Rörhl ou de um Sebastién Loeb.

No mezzanino estão as duas pistas dedicadas ao rally e off-road (Wagner Gonzalez)

“Para nós o importante é reproduzir os carros com a maior fidelidade possível, desde a pintura da carroceria até o tamanho dos pneus”, comenta Rogério Mosca, o gerente da loja fundada e mantida por Luiz Carlos Cardoso em 1993. Cinco minutos de papo com qualquer um dos dois e e você já começa a perguntar quanto custa o carrinho (a partir de R$ 250,00), o acelerador ( a partir de R$ 180,00) e descobre que pode até mesmo alugar o kit para disputar baterias de 20 minutos. Quando precisar eles também fazem a manutenção do equipamento na hora, sempre com sorriso nos lábios e dois dedos de boa prosa.

Clássicos e populares nacionais também estão são reproduzidos com detalhes (Wagner Gonzalez)

A loja foi uma mudança e tanto para quem curtia esse hobby apenas com os mais chegados da rua onde morava. “Até então eu tinha a pista para meu divertimento e de alguns amigos”, comenta Luiz Carlos. Modelista de mão cheia, Cardoso preserva sua arte: quem o conhece bem diz que apesar de ele ter aberto o espaço para o público, o ciúme que ele sente de suas criações ainda é grande o suficiente para manter uma coleção maravilhosa de miniaturas guardada a sete chaves. Dada a atenção que ele dispensa a quem aparece pela Shelby tal afirmação soa duvidosa.

É nas noites de terças e quintas que a loja ganha ares de autódromo internacional: a partir das 18h30 começam a chegar os competidores: pais de família com filhos e filhas (adolescentes ou nem tanto), crianças de 50 anos ou mais, enfim, gente que vem relaxar disputando baterias que semanalmente abordam um tema diferente: F1 dos anos 1960, 1970, carros nacionais, DTM de uma determina temporada…

O perfeccionismo na reprodução dos detalhes usa argila nos carros de off-road (Wagner Gonzalez)

A fidelidade dos carros chega a requintes de pesquisas em livros, revistas e a onipresente internet; junto ao balcão da loja formam-se grupinhos para debater sobre a cor da carroceria, o local onde um certo adesivo de patrocinador foi colado ou até mesmo para descobrir que o matemático Ricardo Aguilar, frequentador assíduo como Silas, também é um excelente guitarrista de blues e rock clássico.

Serviço: Shelby Modelismo, rua Padre Machado, 43, S.Paulo (SP), 11-5571-2002; www.shelby.com.br; facebook.com/shelbymodelismo. Horários de funcionamento: terça a sábado, das 16:00 às 21:30; domingo, das 18:00 às 21:30.