F-1 2017 balança mas não cai

Valtteri Bottas (Mercedes)

Poder de fogo da F-1 parece inalterado

Williams segue sendo Williams

McLaren em perigo

Quatro dias de testes com carros recém-saídos de seus ninhos deram uma vaga ideia do que podemos esperar da F-1 2017: Mercedes e Ferrari seguirão ocupando manchetes, Red Bull parece em busca dos caminhos da aerodinâmica para brigar por vitórias enquanto a Williams tem equipamento para se aproximar dos top 3… se deixar de cometer os erros estratégicos que a tornam famosa. Num segundo plano, Renault, Haas, e, apesar dos problemas enfrentados, Toro Rosso, pela ordem, poderão formar a espinha dorsal do meio de campo. Force India, McLaren e Sauber têm problemas importantes para resolver antes de se consolidarem como forças a considerar. Em meio a uma semana de descobertas e decepções Nico Rosberg, o Campeão Mundial de 2016, fez uma aparição surpresa no autódromo de Barcelona e comentou o trabalho dos novos administradores da categoria:

Nico Rosberg apareceu de surpresa no treino de quarta-feira e aprovou o novo clima do paddock (Mercedes)

“Agora podemos publicar vídeos feitos nos boxes. A Liberty Media está de parabéns, começou bem.”

A quilometragem e o desempenho mostrados pelos quatro pilotos mais rápidos da semana – Valtteri Bottas, Sebastian Vettel, Kimi Räikkönen e Lewis Hamilton -, deixam poucas dúvidas acerca da confiabilidade e eficiência dos AMG-Mercedes W08 e Ferrari SF70H. Ainda em início de lapidação, o carro alemão apresentou duas falhas notáveis: o desempenho quase inalterado ao mudar de pneus de composto super macio (supersoft) para ultra macio (supersoft) e uma pane elétrica que impediu Lewis Hamilton de treinar na manhã de quinta-feira, quando a pista foi molhada artificialmente. Em termos de equilíbrio de chassi, porém, poucos carros chegam perto dos níveis de aderência mecânica e tração dos Flechas de Prata.

Sebastian Vettel foi o segundo mais rápido da semana e mostrou que o SF70H pode surpreender (Ferrari)

O mais próximo disso, perigosamente próximo a ponto de incomodar a Mercedes, é o SF70H da Ferrari. A maior virtude do mais recente chassi italiano é o bom desempenho com pneus macios,  que tecnicamente oferecem maior durabilidade ao custo de menor aderência; foi com esse equipamento que Sebastian Vettel e Kimi Räikkönen marcaram, respectivamente, o segundo e terceiro tempos da semana. Bottas usou a versão mais macia possível e Hamilton a segunda mais aderente, ambas ainda inéditas nos carros da Scuderia. Tal qual os dois Mercedes, os carros italianos são capazes de transmitir potência ao solo de maneira uniforme e eficiente em curvas e retas. Uma boa análise visual desses dois chassis pode ser vista neste vídeo produzido pelo site italiano italiansupercar.net.

Daniel Ricciardo não treinou tanto quanto Max Verstappen, mas foi o Red Bull mais rápido (Red Bull)

Tal qual as duas equipes já citadas, Red Bull e Renault formaram um sanduíche, onde os franceses foram o recheio, sendo que todos marcaram seus melhores tempos com pneus macios. Monoposto de linhas mais limpas, o RB13 ainda parece longe de sua configuração final, a julgar pelas palavras do próprio Adrian Newey que admitiu à reportagem da Sky TV ainda não ter claro a relação de eficiência entre a aerodinâmica de sua criação e o desempenho do motor Renault, que no caso da Red Bull é rebatizado como “TAG-Heuer “.

Nico Hulkenberg (foto) e Jolyon Palmer mostraram a boa evolução da Renault em relação a 2016 (Renault Sport)

A Renault demonstrou recuperação significativa em relação ao desempenho registrado na temporada passada e promete disputar posições mais destacadas em 2017. Nessa primeira semana ambas escuderias sofreram problemas típicos de carros novos: a Red Bull foi obrigada perder algum tempo de treino para trocar um sensor e verificar um problema no escapamento, sempre com o seu carro sob a condução de Daniel Ricciardo; Max Verstappen não teve problemas e completou quilometragem 20% maior.  O time francês teve que rever o conceito dos dutos de refrigeração dos freios dianteiros e outros problemas não divulgados. Além disso os comissários técnicos da FIA solicitaram uma alteração no suporte da asa traseira, considerado fora do regulamento.

Desempenho da Sauber (Ericsson fez o nono melhor tempo) surpreendeu mas não convenceu (Sauber)

Não fosse a presença inesperada e, altamente surpreendente, de Marcus Ericsson com o nono tempo da semana, outra formação sanduíche viria na sequência, desta vez com os dois Haas VF17-Ferrari de Romain Grosjean e Kevin Magnusssen cntre os Williams FW40-Mercedes de Felipe Massa e Lance Stroll. A exemplo dos pilotos da equipe norte-americana, os suíços da Sauber também apelaram para os pneus de composto super macio para registrar suas marcas mais expressivas. O outro piloto em atividade pela Sauber, o italiano Antonio Giovinazzi, impressionou bastante o pessoal a equipe de Hinwill, apesar do déficit de seis décimos de segundo em relação à melhor marca de Ericsson; comparadas as experiências de um e de outro, o potencial do italiano parece bem superior ao do sueco.

Felipe Massa mostrou que o FW40 tem potencial. Williams mostrou que cntinua sendo Williams (Williams)

Um dos fatos mais comentados da semana foi a decisão da Williams optar por dar mais quilometragem a Lance Stroll em detrimento de desenvolver o carro explorando a experiência de Felipe Massa. Não é difícil concluir que escalar o brasileiro para andar de manhã e deixar o período da tarde para o canadense se adaptar ao seu novo brinquedo teria sido muito mais produtivo. Esta opção garantiria o trabalho de desenvolvimento do carro, a maturação do piloto de 18 anos e tempo para recuperar os estragos acontecidos e que forçaram a interrupção dos trabalhos de pista um dia antes que as demais equipes.

De qualquer maneira, ainda é cedo para crucificar o recém-chegado: a diferença de apenas três décimos para Felipe Massa é respeitável, mesmo levando-se em conta que o brasileiro não teve a chance de acertar melhor o novo FW-40. Aos incrédulos lembro as atuações de Jody Scheckter e Romain Grosjean no início de suas carreiras e afirmo que ainda é cedo para incluir Stroll na galeria onde aparecem Pastor Maldonado ou o suíço Gregor Foytek.

Haas melhorou durante a semana e na quinta-feira Grosejan foi o segundo mais rápido (Haas)

Este video garimpado pelo internauta Big Ronnie Nazar, gravado no primerio dia de treinos, oferece uma boa comparação do comportamento de cada chassi no inídio dos treinos.  Durante a semana a equipe Haas enfrentou uma série de pequenos problemas (incluindo freios, calcanhar de Aquiles do carro de 2016) mas, dia após dia, seus pilotos foram acumulando quilometragem e na quinta-feira Grosjean completou nada menos de 117 voltas, número respeitável para um dia de trabalho. Ainda há muito o que trabalhar para acertar o chassi projetado e construído pela Dallara, mas a consistência do trabalho do time aponta para bons progressos na semana que vem.

Não se pode considerar positivo o resultado das demais três equipes que completam o grid de 20 carros da temporada deste ano: Force India, McLaren e Toro Rosso enfrentaram problemas variados e até mesmo graves, como foi o caso da equipe ligada à Honda. Dado o traumático histórico da união que entra na terceira temporada são cada vez mais fortes os rumores que apontam para um divórcio entre japoneses e ingleses como a grande notícia da segunda metade da temporada.

A Force India mostrou o rendimento aquém do esperado para quem brilhou em  2016 (Sahara Force India)

Quarta colocada na temporada passada entre os Construtores, pode-se dizer que a Force India decepcionou: pequenos problemas – como escapamento e vazamento de óleo -, não foram suficientes para afetar o moral de uma das equipes mais abnegadas e eficientes do paddock. O chassi, porém, ainda está longe de mostrar um bom equilíbrio nas saídas de curva, o que afetou diretamente os tempos marcados por Estebán Ocón, Sérgio Pérez e Afonso Celis Jr, piloto reserva da equipe e que, a exemplo dos seus companheiros, também registrou suas melhores marcas com o composto super macio.

Não bastassem os problemas mecânicos, Stoffel Vandoorne foi mais rápido que Fernando Alonso (McLaren)

Dificilmente o clima na McLaren poderia estar mais carregado do que o notado após os novos motores Honda terem apresentado problemas de lubrificação graves o suficiente para que uma nova remessa, com diferente especificação, fosse montada para os testes da semana que vem. Além disso, o chassi MCL32 não parece ser o melhor amigo de Stoffel Vendoorne ou Fernando Alonso: mesmo calçado com composto ultra macio, os mais aderentes à disposição, os carros laranja e preto só foram mais rápidos que os Toro Rosso de Daniil Kvyat e Carlos Sainz, que marcaram seus melhores tempos com pneus de compostos macio e médio, respectivamente. Yusuke Hasegawa, o responsável pelo programa de F-1 nipônico, admite que as primeiras corridas da temporada poderão ser difíceis para a equipe.

Yusuke Hasegawa, líder da Honda na F-1, promete novos motores para os treinos da semana que vem (Honda)

O Toro Rosso STR 12, ironicamente o carro considerado o mais bonito da turma de 2017, foi o menos produtivo da semana. Problemas de confiabilidade, que incluíram o motor Renault, não possibilitaram grande quilometragem: o time júnior da Red Bull foi o único que ficou abaixo das 200 voltas. No extremo oposto Mercedes (558 voltas) e Ferrari (468) foram as fominhas de pista.

O Toro Rosso STR12: bonitinho, mas por enquanto mostrando desempenho bem ordinário (Red Bull)

Relembre os melhores tempos da semana

Posição/Piloto/Carro/Tempo/Pneu/Dia da melhor volta/Número de voltas durante a semana

1) Valtteri Bottas, AMG-Mercedes W08, 1’19″705, ultra macio, 1/3, 324 voltas.

2) Sebastian Vettel, Ferrari SF70H, 1’19″952, macio, 1/3, 267 v.

3) Kimi Räikkonen, Ferrari SF70H, 1’20″872, macio, 02/03, 201 v.

4) Lewis Hamilton, AMG-Mercedes W08, 1’20″983, super macio, 28/02, 234 v.

5) Daniel Ricciardo, Red Bull RB13-Tag Heuer, macio, 1’21″153, 1/3,143 v.

6) Jolyon Palmer, Renault RS17, 1’21″396, macio, 1/3, 143 v.

7) Max Verstappen, Red Bull RB13-Tag Heuer, macio, 1’21″769, 02/03, 174 v.

8) Nico Hulkenberg, Renault RS17, 1’21″791, macio, 1/3, 150 v.

9) Marcus Ericsson, Sauber C36-Ferrari, 1’21″824, super macio, 1/3, 198 v.

10) Felipe Massa, Williams FW40-Mercedes, 1’22″076, macio, 27/02, 103 v.

11) Romain Grosjean, Haas VF17-Ferrari, 1’22″118, super macio, 1/3, 169 v.

12) Kevin Magnussen, Haas VF17-Ferrari, 1’22″204, super macio 28/02, 169 v.

13) Lance Stroll, Williams FW40-Mercedes, 1’22″351, macio, 1/3, 110 v.

14) Antonio Giovinazzi, Sauber C36-Ferrari, 1’22″401, ultra macio, 2/3, 151 v.

15) Estebán Ocón, Force India VJM10-Mercedes, 1’22″509, super macio, 28/02, 86 v.

16) Sérgio Perez, Force India VJM10-Mercedes, 1’22″534, super macio, 2/3, 121 v.

17) Stoffel Vandoorne, McLaren MCL32-Honda, 1’23″443, ultra macio, 2/3, 107 v.

18) Fernando Alonso, McLaren MCL32-Honda, 1’22″598,  ultra macio, 1/3, 101 v.

19) Daniil Kvyat, Toro Rosso STR12-Renault, 1’22″956, macio, 28/02, 100 v.

20) Carlos Sainz, Toro Rosso STR12-Renault, 1’23″540, médio, 1/3, 83 v.

21) Alfonso Celis Jr, Force India VJM10-Mercedes, 1’23″568, ultra macio, 1/3, 71 v.

Obs.: tempos não oficiais.