Escolhendo vinho pelo tato

Detalhes externos da garrafa dão boas dicas sobre o conteúdo

Leitura do rótulo é item muito importante

Peso da embalagem é informação

 

Escolher uma garrafa de vinho pode ser um esporte radical ou uma atividade digna de Sherlock Holmes nas horas vagas. O resultado disso é bem lógico: você pode sofrer uma queda de autoestima ou curtir a sensação de ter desvendado um mistério lacrado a sete cortiças. Tal qual encarar a degustação como uma atividade sem maiores mesuras, examinar alguns detalhes mundanos da garrafa que clama pelas suas mãos é um GPS bastante confiável para evitar se perder pelo caminho desta prazerosa atividade que é desfrutar de um bom vinho.

E aqui chegamos à primeira pergunta recorrente de hoje: o que é um bom vinho? Em minhas primeiras experiências a resposta para isso seria um vinho rosé nacional que trazia um pequeno cadeado junto ao gargalo. Era um vinho bastante ordinário mas preenchia minhas necessidades: era fácil de beber, barato o suficiente para meu orçamento da época e aquele cadeadinho era objeto de desejo de várias colegas de faculdade… Assim foi até que ouvi de uma companheira da Faap que ela não usava aquele Chatêau não-me-lembro-o-nome nem para rechear bolo.

Quarenta anos depois desse episódio eu não beberia esse rosé com o mesmo prazer, mas não vou dizer que se tratava de um vinho ruim. Vinho bom é o que satisfaz quem o bebe e deixa boas lembranças, um território onde a ressaca é imigrante ilegal e merece ser deportada sem mais delongas. O tal Chatêau não-me-lembro-o-nome não se tornou um vinho ruim, meu paladar é que foi educado e tornou-se mais apurado. Nada de ser pretensioso: esse raciocínio é análogo ao aprendizado de qualquer atividade humana. Só gênios de QI medido em centenas é que podem se dar ao luxo de pular etapas básicas na descoberta de qualquer coisa.

 

Quando menos é mais: rótulo do Bouza diz o necessário; Chilano traz mensagem vazia e auto elogiosa

Deixando a filosofia de lado, vamos ao que consta na chamada deste texto: analisar um vinho pelos detalhes da garrafa: coisas como preço, cápsula, informações que constam do rótulo e peso. Rolha e meia você encontra no supermercado ou armazém de sua preferência uns vinhos europeus oferecidos a preços semelhantes, até mais baratos que um sul-americano mediano. A primeira reação de um comum mortal é “se é espanhol/francês/italiano/português é coisa boa”.

A procedência também engana: na Espanha, França, Itália ou Portugal também são produzidos vinhos de péssima qualidade. E neste “péssima qualidade” estão vinhos que mancham a toalha da mesa de maneira indelével e ao primeiro gole farão você se sentir mastigando um pedaço de madeira. Já morei na França e na Inglaterra e, curiosamente descobri neste país insular a virtude de não julgar um vinho por sua procedência graças à oferta que caracteriza o mercado inglês. Se na França é raro encontrar uma garrafa que não seja nacional, na ilha do outro lado do Canal da Mancha você tem ampla variedade de escolha. Foi em Londres que descobri a tal Wagner Vineyard, dos Estados Unidos, e que a Romênia produz vinhos baratos e bebíveis.

Aqui no Brasil uma garrafa de um bom Malbec argentino ou Carmenère chileno custa o equivalente a uma garrafa de um europeu mediano, enquanto um vinho brasileiro de qualidade semelhante custará o dobro ou mais. Custo Brasil, acordos do Mercosul, despesas de transporte e técnicas de produção mais evoluídas ajudam a explicar essa tabela de preços.

Como você percebeu no parágrafo acima não mencionei a safra nem o produtor do Chilano. A razão é simples: trata-se de um vinho produzido por A, com uvas plantadas por B e C, engarrafado por D, importado por E e muitos a-e-i-o-u depois piscou para você lá da parte de baixo da prateleira. Se o produtor confia no tonel e sabe que o produto é top, ele terá orgulho de colocar seu nome no rótulo e dar a cara para bater. Não que o Chilano seja ruim: se você quer um vinho para consumir sem pretensões, beber com moderação bem moderada, ele não vai te presentear com dor de cabeça ou coisas do tipo, ele preenche esse requisito. Mas, encha a taça com muita calma.

 

Cápsula afundada: esqueça essa garrafa…

Ao produzir as fotos desta matéria usei vinhos de vários preços para dar dicas sobre o que observar. Você vai notar que a cápsula – aquela capinha que cobre a rolha – varia de garrafa para garrafa. Nos mais baratos ela é confeccionada em um material plástico, nos de preço médio é utilizado produto metalizado e nos mais caros é puro metal.  Tanto quanto ver esse material, note se ela está nivelada com o topo do gargalo. Se a rolha estiver saindo ou afundada (como mostra a foto), deixe essa garrafa de lado; as chances de o vinho estar estragado são tão grandes quanto as de você apostar na loto e não acertar nenhum número.

 

A partir da esquerda: cápsula plástica, semi metalizada e metal puro

O estado do rótulo também ajuda a encontrar algumas barganhas: normalmente, ao renovar o estoque as importadoras como a Casa Flora – outrora um paraíso de ótimos preços, hoje em dia um armazém gourmetizado em plena zona cerealista paulistana -, vendem as garrafas com rótulos manchados ou danificados a preços reduzidos. Vale a pena ficar amigo dos vendedores do seu fornecedor para receber essas informações na hora certa.

Já vimos que as informações do rótulo devem conter a variedade das uvas usadas na elaboração, indicação de safra, região produtora, teor alcóolico, nome do produtor e, no contrarrótulo, notas sobre o processo de envelhecimento, caráter da bebida e otras cositas mas. Mesmo sem beber nada, você vai ter que aproximar a garrafa aos seus olhos para ler tudo isso: as letrinhas são geralmente pequenas e os rótulos nem sempre são bem resolvidos.

 

Note as referências usadas (Esq, embaixo) e as diferentes concavidades de três vinhos diferentes

Nesse momento você também vai descobrir aquele fundo côncavo, outra indicação da qualidade do vinho. As garrafas mais baratas terão fundo chato, pois custam menos e ajudam a compor o preço final mais acessível; as mais caras terão concavidade mais pronunciada.  Ainda não consegui chegar a uma conclusão sobre a principal razão disso e, portanto, vou mencionar as que considero as mais prováveis. A primeira é que esse “acidente” ajuda a acumular a borra formada no interior da garrafa, e que ali permanece se você servir corretamente: jamais vire a garrafa de cabeça para baixo para aproveitar até a última gota.

Outras possibilidades: aquele “buraquinho” ajuda na hora de armazenar a garrafa vazia e, no extremo oposto do ciclo de existência dessa embalagem, permite um apoio extra para servir.  Dica: ao abrir a garrafa sempre elimine a cápsula até um ou dois centímetros abaixo do gargalo: o contato do vinho com o metal pode alterar o gosto e a composição da bebida. Mais, evite encostar a garrafa na borda da taça e…

… bem, chega por hoje. Escolha sua garrafa e desfrute. E escreva para Motores Clássicos para tirar suas dúvidas ou sugerir pautas.

Saúde!

 

 

8 Comentários

  1. Wagner, gosto de vinhos… Adorei as dicas…

    Em visita a Portugal, em Outubro passado, descobri as maravilhas do Vinho Verde.

    Agora, estou viciado neles. Pena que, aqui no Brasil, custem tão caro! E depois que a gente vê o preço lá, eles parecem ficar mais caros, ainda…

    • Daddy Biasoli,

      O mundo dos vinhos é realmente tão apaixonante e envolvente quanto o dos carros. E você parece que já descobriu isso, assim como os preços desproporcionais que somos obrigados a pagar por esse produto.

      Saúde!

    • Sra. Zanetti,

      Sem dúvida uma boa sugestão. Há uma variedade significativa de vinhos do Porto, entre brancos e tintos, que justificam seu pedido. Pedido que será atendido em breve.

      Saúde!

  2. Gostei do site! E, como sou um apaixonado por vinhos, tão logo vi o link para este texto, vim direto! Talvez por isso é que prefira o inverno, pois como o vinho esquenta o corpo, combina bem com a estação. Mesmo sem ser um grande conhecedor de vinhos, sempre faço um pente fino na garrafa para ter noção do que me espera após abrir. Os vinhos que evito comprar são os que vêm sem rolha, com tampa de rosquear. E isso está ficando comum no Brasil, muitos produtores estão substituindo a rolha por tampa de rosca.

    • Caro Roaddie,

      Bem-vindo!

      Bom saber que você presta atenção aos rótulos das garrafas, belo sinal! Quanto ao fato de alguns produtores terem trocado a tradicional rolha de cortiça (ou sintética) por tampas metálicas rosqueadas, relaxe: leve em consideração que isso acontee em vinhos para consumo rápido, não aqueles de guarda. Sem dúvida que a cortiça é mais charmosa e eficiente, mas as tampas de rosca são a solução para manter custos mais baixos e, consequentemente, colaboram para a prática dese nobre esporte etílico.

  3. Muito bom seu comentário sobre os vinhos.Concordo com você, Wagner: temos que pesquisar e ao mesmo tempo provar vinhos diferentes que irão aprimorar o conhecimento !

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