PINTEIRO NEGA ACORDO COM SPERAFICO

Possibilidade foi sugerida em post de jornalista do Paraná

Ingo Hoffmann cobra voto consciente dos eleitores

Duas FAUs pressionadas a apoiar Sperafico

Milton Sperafico (esq) e Waldner Bernardo, candidatos à presidência da CBA (Foto kartmotor.com.br)

Há tempos que a eleição para a presidência da Confederação Brasileira de Automobilismo não gera tamanha movimentação e deixa tão claro a disparidade entre os Estados que praticam automobilismo em caráter profissional e aqueles onde o kart e modalidades regionais são a essência local. Esse confronto espelha o descontentamento de muitos com a administração das duas gestões de Cleyton Pinteiro (2009/2013 e 2013/2017), especialmente a comunidade de pilotos, chefes de equipe e clubes, para quem a entidade pouco ou nada fez de positivo nos últimos oito anos. O pleito acontece sexta-feira (20), na sede da entidade, no Rio de Janeiro.

 

O clima nos bastidores está quente o suficiente para esquentar a antiga ideia de criar-se uma liga entre algumas federações, algo que pode ganhar corpo no caso de Bernardo sair vencedor e não sinalizar que vai reverter os rumos trilhados por Pinteiro. O jornalista Luiz Aparecido, de Cascavel (PR),  sugeriu em post publicado ontem em redes sociais que o atual presidente teria procurado alguns presidentes para propor uma solução de consenso, "conversa que ão foi adiante". Consultado, o atual presidente da CBA desmentiu essa informação. Pinteiro apoia a candidatura de Waldner Bernardo, seu afilhado político e presidente da federação pernambucana. O candidato de oposição é o paranaense Milton Sperafico, atual vice-presidente da CBA, ex-piloto e integrante de uma das grandes dinastias do automobilismo nacional.

 

O automobilismo brasileiro há muito vive realidades distintas entre os Estados que praticam o automobilismo de velocidade no asfalto – especialmente GO, PR, RS, SP -, e os demais. Rio de Janeiro e o Distrito Federal até alguns anos atrás faziam parte dessa lista. A destruição e mutilação de seus respectivos autódromos não só alterou esse quadro como reforçou a inabilidade de Pinteiro em evitar que esses fatos se tornassem marcas de sua gestão. Nesse período os gestores da federacão de Brasília, que apoiou a candidatura de Cleyton, foram envolvidos em um escândalo financeiro e a entidade foi temporariamente desfiliada. Novamente ativa, a entidade não tem direito a voto no pleito deste ano.

 

As pistas de Fortaleza e Caruaru, os únicos circuitos permanentes no nordeste brasileiro, base eleitoral do dirigente, estão praticamente abandonados. Vale lembrar que uma categoria de protótipos construídos no Ceará recentemente passou a realizar suas provas em São Paulo. Não se pode deixar de lado, porém, duas novidades positivas na região na qual Pinteiro tem votos: a construção de autódromos em Curvelo (MG) e São Miguel do Taipu (PB) e o kartódromo de Paladino, também na Paraíba.

 

É curioso que o surgimento dessas novas praças não ajuda a aplacar as críticas à CBA. De maneira explícita cobra-se a renovação dos dirigentes, a possibilidade de ter-se novamente um ex-piloto no comando da entidade, fato que já aconteceu com Piero Gancia, campeão brasileiro de 1966 e presidente da entidade entre 1987 e 2000. Acredita-se que alguém com esse perfil reverteria o quadro crítico que o esporte vive desde que Pinteiro assumiu o comando, situação agravada pela saúde financeira de um País dilapidado por crimes de corrupção que levaram à recessão econômica nos últimos três anos.

 

O desaparecimento de categorias com potencial para desenvolver novos pilotos - como a F-Futuro, criada por Felipe Massa -, a homologação de outras que sequer chegaram a existir na prática - como a Touring Racing Club -, e a opção de não desenvolver um diálogo de reaproximação com as fábricas de automóveis em uma época em que o setor vivia um crescimento memorável são alguns fatos que ilustram o padrão do trabalho de marketing e planejamento estratégico desenvolvido pela a entidade nos últimos oito anos. Mais, o prêmio de R$ 200 mil para o Campeão Brasileiro de Kart na categoria Sudam disputar a temporada 2017 da F-3 Light ainda não foi pago ao piloto Pedro Goulart: a verba estaria comprometida para pagar uma vaga na equipe RR Racing, do empresário Rogério Raucci, que admite ter paralisado temporariamente as atividades do time. Dárcio dos Santos, dono de outra equipe, se ofereceu para prover os serviços mas sua proposta não teve repercussão junto à confederação.

 

A chamada divisão norte-sul do esporte – nome que não reflete a geografia do País -, acontece por motivos relativamente simples: o automobilismo profissional está baseado nos Estados com maior poder econômico e as atividades nas praças do Nordeste tem caráter regional e são pouco divulgadas. Roberto Mellara, presidente da federação de Sergipe lembra que o principal evento local reúne algumas centenas de carros 4x4, que são populares no litoral da região, mas poucos conhecem essa competição. Este quadro alimenta a idéia imprecisa de que as federações do nordeste são inexistentes ou inoperantes quando na realidade elas sobrevivem com dificuldade em um mercado de atuação bastante reduzido, especialmente em relação às suas congeneres mais fortes.

 

Situação bizarra nesta bi-polaridade é a Federação de Automobilismo de Santa Catarina, cujo campeonato de velocidade na terra é tido como modelo. Seu presidente Almir Petris declarou apoio a Dadai, mas os clubes que compõem sua entidade são explicitamente a favor de Sperafico. Petris é apadrinhado por Jairo Anjos de Albuquerque, que há décadas se alterna no poder da FAUESC e tem interesses diretos na agência de turismo que cuida da emissão de passagens e reservas de hotéis da CBA. Albuquerque dos Anjos também está envolvido no projeto mal sucedido de construção do Autódromo de Canelinhas, que seria a primeira pista asfaltada do seu Estado. De acordo com clubes que se opõem à gestão de Petris, em dezembro de 2014 a FAUESC transferiu à CBA a quantia de R$ 80 mil a título de adiantamento por filiação de pilotos para a temporada seguinte. Representantes dos clubes cobram que tal verba deveria ter sido usada para melhorias no cenário local. A federação de Mato Grosso do Sul também sofre pressão semelhante para mudar o voto declarado a Bernardo.

Boa parte dos presidentes que o apoiam, entre eles a baiana Selma Morais e o alagoano Jefferson Cavalcante Magalhães, não esconde preferir uma situação de complementação entre as duas chapas. Magalhães reconhece que “Sperafico também tem méritos” e Selma crê que isso pode acontecer:

 

“Acredito que ainda há uma chance de união, após o pleito, com o aproveitamento de ideias convergentes.”

 

Ingo Hoffmann defende a eleição de Sperafico para presidente da CBA (Foto Mitsubishi)

Este vídeo postado hoje por Ingo Hoffmann em sua página no Facebook, pode ser o melhor resumo da parcela que cobra mudança na CBA. Ícone do automobilismo brasileiro e respeitado por sua postura transparente e correta, o multi-campeão de Stock e um os principais nomes do esporte já fez parte da administração de Cleyton Pinteiro, mas desligou-se quando sentiu que sua presença na confederação poderia comprometer sua reputação. Ele cobra dos presidentes das 18 federações aptas a votar e da Associação Brasileira dos Pilotos de Competição, optar por Milton Sperafico.

28 Comentários

  1. O Ingo está certo, eu tenho a mesma opinião.
    Acho que chega desse modelo que só fez o nosso automobilismo andar para trás !
    É necessário mudanças urgente.
    Perdemos Jacarepaguá e parece que ninguém se importou com isso.
    Onde já se viu, um esporte vencedor que tantas glórias trouxe ao país, ter que sair para dar lugar a outros , onde muito pouco se conseguiu ?!

  2. Não escrevo como assessor da Chapa Bandeira Verde, mas como entusiasta, fã e trabalhador do do meio, ok?

    A CBA, pelo menos até hoje, não foi responsável pela construção de novos autódromos. A maioria destes, quando aparecem (e olha que você nem chegou a citar o Velo Cittá), são frutos de iniciativas privadas. No entanto, homologá-los e defendê-los é, sim, uma missão que sempre poderia ter sido da entidade. Faltou força política da atual gestão para não deixar acontecer o que aconteceu com Jacarepaguá, por exemplo.

    Já sobre a FAUESC (não FASC), olhando de fora, até um leigo vê que a situação é surreal. TODOS os clubes de lá querem uma coisa, a maioria dos pilotos de lá querem uma coisa, enquanto o presidente, SOZINHO, quer outra. Como dizem por aí, “não tenho provas, mas tenho convicção”…

    O artigo todo é bastante bom e, certamente, nos exigirá uma nova leitura na semana que vem.

    • Betto,

      Certamente a entidade-mater do atuomobilismo nacional, como a ela se refere o querido locutor Chicão, não deve deve ser responsável pela construção, mas, isto sim, exercitar “…o compromisso de dirigir, difundir e incentivar no País a prática de todas as modalidades desportivas automobilísticas…”, tal como consta em seus estatutos e em seu site. Não citei o Velo Cittá por que o texto faz menção a outras praças. Agradeço a correção sobre a sigla da Federação de Automobilismo do Estado de Santa Catarina.

    • Boa noite
      Sou ex piloto bi-campeão na terra e atual no asfalto; sou filiado em SC e posso dizer que por aqui ninguem mais quer a atual gestão estadual e nacional. Clubes e pilotos em geral querem RENOVAÇÃO.
      Abs
      Marcelo Pacheco
      Floripa/SC

      • Marcelo,
        Obrigado por sua contribuição, que vai de encontro ao que apurei junto aos seus colegas catarinenses. Apareça sempre neste espaço, que também é seu.

  3. Nescessaria mudança imediata não só da CBA, na minha humilde opinião, mas a Fasp por exemplo tambem está na mão dos “mesmos e suas mesmisses” a quanto tempo? Reclamam dos novos valores de locação do autódromo, mas que tal compararem com o preço de uma festinha num buffet infantil? Porque não abrem as contas ao invés de só reclamar e repassar custos. Aqui em SP, num regional o preço medio de uma inscrição é de R$ 1.600,00, com uma media de 100 inscritos, fora sa novissima Track Day que conta com mais 100 carros, o dinheiro não dá?

    • Helio, seja bem-vindo.

      Ontem mesmo estive na FASP e cobrei do seu presidente e seus dirigentes clareza na divulgação da contabilidade de entidade. Pelo menos dois dos presentes concordaram que é preciso esclarecer essa situação. A ver quando isso acontecerá…

      Sem dúvida é preciso renovar o esporte em vários setores, uma das bandeiras deste novo espaço.

  4. Aos queridos amigos Presidentes das Federaçoes Estaduais filiadas a Confederaçáo Brasileira de Automoblismo Endosso 100 % este importante depoimento do querido amigo e companheiro das pistas automobilisticas nosso multi campeáo Ingo Hoffmann .
    Dia 20.01.2017 esperamos que seja eleito Presidente da CBA o piloto Milton Sperafico da chapa #bandeiraverde

  5. Há a necessidade de uma nova gestão, a reciclagem é bem vinda e seria melhor nas Federações também, seria ótimo um piloto administrando. Abraços Wagner, ótima matéria.

  6. Nada tenho a ver com o automobilismo brasileiro, sou apenas um aficcionado por este belo esporte. Um esporte que, aqui no Brasil, infelizmente caminha a passos largos para um triste fim. Em um País em que se tem um povo que praticamente de tudo faz para adquirir um automóvel, não se vê este desejo refletido em competições automobilísticas. Uma das causas disto com certeza é a indiferença dos orgãos reguladores do automobilismo, ou sejua CBA e todas as Federações que praticamente nada fazem em pról do esporte, o que mais se tem visto é uma admistração em causa prória. Ter o controle de um destes orgãos deve realmente ser algo muito vantajoso para que detém este controle, pois ao mesmo tempo em que se vê a queda do automobilismo ve-se também o enriquecimento dos mandatarios destes órgãos e sua luta e obstinação pela manutenção do poder. Desmandos existem em todas as Confederações esportivas e em todas as Federações e isto não é de hoje, mas parece que, aproveitando a situação caótica pela qual o Brasil esta passando, onde a impunidade grassa, ficou ainda mais vantajoso deter o poder. Me parece que cabe aos pilotos a mudança desta situação pois se votarem conscientes para a direção do clube ao qual estão filiados, poderão exigir votos decentes e consientes para a sua Federação e depois para o comando da Confederação. Há alguns anos, ouvindo pilotos do campeonato catarinense de velocidade na terra criticarem várias decisões da FAUESC, eu disse a eles que enquanto eles não abdicarem de sua vontade de ir para a pista e correr sob qualquer condição imposta pela federação, iriam ter continuar a reclamar, pois reclamações não afetam a esta turma que comanda estes organismos reguladores do esporte.

    • Ingo,

      Sua colocação é muito parecida com a de vários amigos e conhecidos; eu mesmo concordo com a maior parte de suas palavras. Acredito que a origem de tudo isso é a herança de séculos de prática da cultura do jeitinho, do levar vantagem, de acreditar que “se eu fizer só um pouquinho não vai atrapalhar nada, ninguém vai notar…”. Discordo de você no que se refere ao primeiro passo para mudar a situação do esporte que é nossa paixão comum: promotores, com a ajuda de empresários sérios e bem sucedidos, seria a melhor combinação para a primeira fase dessa renovação.

      • Caro Wagner, sou um ninguém, apaixonando por automobilismo, mas de certa forma faço parte da “bagaça”, sou o público!
        Acredito que tirando a situação resumida nos “nomes” ou seja, gostaríamos de um dirigente “dou dicá” e não um “dá daí”, a solução é relativamente simples, basta voltar a olhar no passado, como era pra dar certo e, internacionalmente, onde funciona e dá certo (carros de turismo de todos os níveis nos EUA, não só marcar stock car), mas com envolvimento das fábricas e dinheiro para todos envolvidos que GASTAM de fato para haver o espetáculo. Promotor é promotor, tem que ter lucro, piloto e mecânico são os artistas, tem que ter lucro e órgão regulamentador tem apenas que mediar o cumprimento de regras estabelecidas pelos dois primeiros e, exercer essa mediação como apaixonados que se dizem, cobrando só as despesas, mais nada !

        Enfim, como funcionava o autobilismo americano e inglês na metade dos anos 60 e 70, e até mesmo o brasileiro. Wagner e Ingo, somos contemporâneos, cada um na sua função e lembramos muito bem ! Até a F1 está precisando disso de novo, chassis e motores que eram competitivos e usados por 3 ou 4 anos, equipes particulares que compravam Brabham, March, Lotus, Lola, . . . Mas enfim, já falei demais e, como disse no início, sou só um ninguém apaixonado por automobilismo, só o público! Ah, a mais de 10 anos não vou à nenhum autódromo e quase nunca mais assisto F1, pena, mas não perco uma prova da MotoGP, fica a dica ! Abraço Wagner.

        • Prezado Paulo,

          Concordo com você e discordo de você. A ver: você é o público, e é por sua causa, enquanto público e mercado consumidor, existe o entretenimento (as competições), o comércio (fabricante de automóveis, patrocinadores, promotores) e uma longa cadeia de negócios que é movimentada pelo esporte. Portanto, valorizo sua opinião e, sobretudo, sua participação em Motores Clássicos. Tal como pilotos, preparadores e promotores, o orgão regulamentador também precisa ter lucro que sustente sua existência e um planejamento financeiro eficiente.

          Concordo que o automobilismo de 50, 60 anos atrás era mais emocionante, colorido e envolvente, mas o tempo passa e impõe mudanças. Essas mudanças serão corretas e proveitosas enquanto entusiastas como você participarem e despertarem em pilotos, patrocinadores, preparadores, promotres e, principalmente dirigentes, que o mercado existe, está vivo e atuante. Convido você a repensar sua decisão de não ir mais a um autódromo. Pense nisso.

          • Primeiro, muito obrigado pela gentileza da resposta. Segundo, acredito não estar sozinho nesta opinião, haja visto a busca de fórmulas mais antigas de entretenimento na própria TV na busca de retomada de audiência e no próprio automobilismo brasileiro, com a resposta do público com a old stock race e até mesmo a kart clássic. Concordo que não devemos parar de evoluir, porém, quando se trata de entretenimento, devemos ter a humildade de usar a marcha à ré e aceitar que aquele caminho não é o melhor . . . Mas aceito o conselho e vou repensar minha posição. Um grande abraço Wagner e muito sucesso em seu extraordinário trabalho !

8 Trackbacks / Pingbacks

  1. EVENTOS – www.motoresclassicos.com.br
  2. EVENTOS – www.motoresclassicos.com.br
  3. ANTÔNIO HERMANN – www.motoresclassicos.com.br
  4. CLÁSSICOS – www.motoresclassicos.com.br
  5. ZEUS CONSPIRA CONTRA O DAKAR – www.motoresclassicos.com.br
  6. OS MILHÕES DA MAZDA – www.motoresclassicos.com.br
  7. LUIZ PEREIRA BUENO, ANO LXXX – www.motoresclassicos.com.br
  8. ESQUENTA A BRIGA PELA CBA – www.motoresclassicos.com.br

Leave a Reply

Seu e-mail não será publicado.


*


Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.