ANTÔNIO HERMANN

Na primeira entrevista desta editoria de Motores Clássicos, Antônio Hermann fala dos seus planos, da CBA e mostra-se cético quanto ao caminho para recolocar o esporte no lugar que merece. Atual presidente-executivo do Banco BMG, já foi jogador de futebol de várzea, piloto com participações destacadas em pistas como Le Mans e Daytona, criador e organizador de categorias no Brasil e agora trabalha para voltar a ter uma equipe na Europa.

Entrevista a Wagner Gonzalez

Fotos de Miguel Costa Jr

“Estou renegociando a volta da minha equipe na Europa”

“Sou contra a privatização de Interlagos”

“Para salvar o automobilismo brasileiro seria preciso recomeçar do zero”

O dia-a-dia como presidente-executivo de um importante banco brasileiro não deixa muito tempo livre para as paixões de Antônio Hermann Dias Menezes de Azevedo, mas quem priva da amizade de Antônio Hermann sabe que o automobilismo ainda tem prestígio em sua agenda. Negociações com a Lamborghini e uma outra marca que ele prefere não revelar podem ajudar muito para a volta de uma equipe brasileira ao ao cenário internacional da categoria GT em 2017. Não se surpreenda se for uma marca inglesa…

“O espaço do automobilismo na minha já foi maior, mas estou vendo a possibilidade de  inscrever dois carros na categoria GT.  Vamos participar de provas curtas, as Sprint,  e as mais longas”, admite Hermann, que em maio completa 63 anos de vida.

Daytona, janeiro, 1997: 7º lugar com esta Ferrari 333 SP,  carro que levou à vitória em Lime Rock em maio

Como piloto ele chegou a defender a equipe oficial da Ferrari na categoria Protótipos, quando pilotou um modelo 333 SP nos anos 1990; seu histórico automobilístico, porém, tem várias outras páginas. Disposto a reviver a principal competição brasileira de resistência, ele investiu bastante no projeto de transformar as Mil Milhas Brasileiras como uma etapa do calendário internacional da Le Mans Series.

“Não tive apoio da imprensa, dos pilotos, muita gente achou a ideia elitista e ainda por cima tive problemas com o pessoal do Centauro Motor Clube. O clube tinha uma dívida pendente por causa de uma vítima que morreu por causa de um incêndio; quando exigi que as equipes montassem um sistema de abastecimento minimamente seguro acharam que isso era um absurdo. Eu não tenho nada contra o automobilismo de base, o regional, elas são necessárias e importantes. Mas se vou investir no esporte, prefiro investir em categorias que eu acho mais interessantes e com bom potencial.”

O projeto das Mil Milhas vislumbrava uma primeira fase de três anos para consolidar a prova internacionalmente, o que justificou um contrato com o L’Automobile Club de l’Ouest (ACO), organizador de Le Mans e detentor dos direitos da Le Mans Series. No segundo ano desse contrato, porém, houve uma mudança radical na área de marketing e o profissional que assumiu o controle do setor optou por trocar o Brasil pela China.

“Eu não ia brigar com o pessoal do ACO, mas depois todo mundo viu o fracasso que foi aquela investida”, completa Hermann.

O passo seguinte foi lançar a categoria GT3 no Brasil, proposta lançada pelo amigo Stéphane Ratel e que hoje existe como Blancpain GT Series. A categoria cresceu e ganhou corpo, mas disputas com relação à equalização dos carros acabou gerando descontentamento entre alguns participantes e no final da segunda temporada “ficou comprovado que ninguém leva o esporte a sério no Brasil”. Uma clara referência ao episódio no qual vários pilotos forjaram o resultado da última etapa de 2012 para evitar que a equipe de Hermann ficasse com o título. Nem por isso houve qualquer atitude dos dirigentes…

“A CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) não teve coragem de fazer nada.”

Lembrar esse fato vem de encontro às vésperas de mais uma eleição da entidade, que há oito anos sob a presidência de Cleyton Pinteiro embarcou em uma das piores gestões de sua história. Nome respeitado no meio em que atua, Hermann poderia se juntar com seus pares igualmente apaixonados pelo esporte, formar uma equipe e tentar a carreira política, aplicando conceitos que o tornaram um executivo de alto nível e bem sucedido. Para muitos, esta seria a receita para o esporte recuperar o prestígio de outrora. A ideia já passou por sua cabeça, mas não prosperou.

“Já lancei meu nome para a presidência da CBA, mas na primeira corrida me penalizaram por queima de largada em uma situação bizarra: larguei na pole e na primeira curva estava em quarto. Dá para entender?”

Le Mans, 1997: 8º lugar, junto com Pierluigi Martini e Christian Pescatori a bordo deste Porsche 911 GT1

Não bastasse isso, na estreia do Mercedes Benz Grand Challenge, categoria que desenvolveu com Washington Bezerra e marcou a primeira ação monomarca da casa alemã em pistas mundiais, foi vítima de outra atitude bizarra.

“Eu estava acompanhando o presidente da Mercedes-Benz no momento em que os carros eram levados para a largada da primeira corrida. Nesse momento alguém anunciou pelos alto-falantes do autódromo de Curitiba que a corrida não poderia acontecer por problemas de segurança. Subi os três andares da torre de controle em seis passos, mas quem tinha feito o anúncio já tinha se escondido… O pior é que o Washington tinha resolvido o problema dos extintores, a causa desse anúncio, durante a madrugada e parece que algumas pessoas não se deram conta…”

Sobre as próximas eleições para a presidência da CBA o empresário diz que Waldner Bernardo, o Dadai, representa a continuidade de um presidente que não entende nada de automobilismo e que Milton Sperafico pode fazer a diferença.

“Mas não creio que poderá fazer muita coisa. A estrutura atual, na qual federações que não cumprem as exigências legais tem o mesmo poder de voto que aquelas que representam São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná é algo que não funciona.”

Direto ao ponto: “Sou contra privatizar Interlagos. Salvar o automobilismo requer recomeçar do zero.”

A solução para ele, seria dar poder de voto para quem “é do ramo, como pilotos e chefes de equipe”. Outra questão bastante atual, a desestatização/privatização de Interlagos, em sua opinião é uma proposta equivocada:

“Se privatizar Interlagos, acaba o automobilismo paulista. Interlagos não é algo atraente para um investidor que não tenha foco no esporte. A F-1 deveria pagar pelo uso da pista: fala-se que a manutenção do autódromo custa R$ 12 milhões por ano, um valor que a organização do GP consegue vendendo picolé.”

A síntese de tudo isso, parece ser a frase com que Antônio Hermann encerrou esta entrevista a Motores Clássicos:

“Precisamos reconstruir o automobilismo brasileiro outra vez, começando do zero.”

18 Comentários

  1. Concordo com o amigo Toninho Hermann temos que começar do zero como na epoca do Automovel.Clube do Brasil que era o representante do Brasil.na FIA

    • Pois é, Águia. Há muito que fazer. E mais importante do que isso é que há gente querendo fazer. Espero que este espaço contribua para unir os idealistas e ativistas de plantão.

  2. Antonio Hermann sempre coerente e antenado no automobilismo. Na minha opinião, um grande injustiçado, pois tentou e investiu para elevar o nível do esporte no país. Aproveito para dizer que está sensacional este novo canal de informação feito por quem realmente entende. Parabéns Beegola, já virei freguês assíduo, principalmente da parte de comes e bebes, pois sei que você é um mestre nesse assunto, também. Vida longa ao Motores Clássicos.

    • Obrigado pelo incentivo, Alan.

      Como respondi ao Águia, espero que este espaço motive os otimistas e ativistas de plantão a corrigir o que que precisa ser corrigido. E que a cada passo adiante possamos compartir boas garrafas.

      Apareça sempre. Esta casa também é sua.

  3. Parabéns “Beegola”, uma matéria concisa e direta.Hermann é um grande homem do automobilismo brasileiro, nem sempre muito bem compreendido. Sou testemunha por sua obsessão por segurança em todos os eventos que fizemos juntos.
    Na única prova do Campeonato Brasileiro de Endurance que fizemos, em Tarumã, passávamos pelos boxes tentando convencer os pilotos a trocar a camiseta que usavam sob o macacão pela vestimenta apropriada (e exigida) contra o fogo. A resposta mais comum era “é muito quente”. Eu acho que o fogo é mais quente.

    • Pois é, Ivo…

      O pior que situações como essa são extremamente comuns, assim cmo mecânico trabalhando de sandália havaianas (dos tipos não homologados, cigarro aceso no canto da boca e não distante de um canto onde tem gasolina, álcool.. Sem falar em criança correndo solta pelo box e até pit lane.

      Agradeço o incentivo e o prestígio de seu comentário. Volte sempre, este espaço também é seu.

  4. Parabéns “Beegola”,são iniciativas assim que darão resultados! Estamos torcendo que o melhor ocorra com as eleições na CBA, que pesem o comprometimento com o esporte e a sua cultura. O Tonico é uma cara de visão e suas ações sempre foram para o melhor do esporte. Temos um longo caminho a precorrer, mas pela história do nosso automobilísmo, nossa cultura tão esquecida vale qualquer esforço atitudes proativas e falar de números com ele, sobre despesas de Interlagos é chover no molhado, disso ele também entende muito bem…mais uma vez boa a entrevista e que venham mais! Forte abs

  5. Parabéns pelo seu novo endereço, Wagner Gonzalez!
    Acompanho o seu trabalho e reconheço que você é um dos maiores entusiastas do automobilismo no Brasil. E porque não dizer no mundo?
    Seu conhecimento sobre o assunto é profundo, infindável e o mais importante é que faz bem feito, exatamente porque faz o que gosta, faz o que nasceu para fazer e ponto final. Ë uma vida inteira dedicada exclusivamente ao esporte das grandes e fantásticas velocidades e isso o torna um grande e sério profissional do jornalismo automobilístico, além da sua perfeita capacidade de gestão.
    Sucesso! Muito sucesso! Sempre!

  6. Ótimo espaço, para chamar as cabeças pensantes e interessadas de plantão e tentar resolver a questão que nos aflige. Como salvar o moribundo automobilismo brasileiro! Pessoas do ramo como Hermann, sempre terão lugar para apresentar sugestões, debater e tentar achar uma solução. Alem do que, temos um problemão doméstico a resolver: O futuro do Autódromo José Carlos Pace, Interlagos, o nosso Templo. Bora lá, resolver!

  7. Admiro muito o Antonio Hermann. Porém na minha opinião ele sempre tentou empreender em categorias caras. O automobilismo brasileiro precisa é de categorias de base como a Fórmula Vee do nosso amigo Roberto Zullino ou a fórmula Inter. O Hermann bem que poderia interessar-se por essas categorias que são um caminho real para que possamos ter novos pilotos iniciando-se assim uma renovação que não pararia nunca. Categorias de carrões é legal, mas só que é para endinheirados que vão lá brincar de correr no final de semana. Enfim , não é o VERDADEIRO automobilismo que tanto precisamos.

    • Big Ronnie,

      Como o próprio Hermann deixou claro na entrevista, ele optou por investir seu dinheiro em categorias onde ele acredita ter mais possibilidades de retorno. Concordo que precisamos de categorias básicas, simples e, principalmente, acessíveis, tanto do ponto de vista econômico quanto social, mas não se pode negar que categorias top também são importantes no automobilismo. De qualquer maneira, não tenho dúvidas que um trabalho junto a faculdades de engenharia, Fatecs, escolas técnicas variadas pode gerar consequências altamente produtivas para o esporte e para a sociedade. Embarque nessa luta com o Motores CLássicos.

  8. Wagner,
    Pelo apresentado na entrevista, parece que o pessoal se une para derrubar as boas iniciativas que o Antonio Hermann propõe, coisa absurda… Como você mesmo sempre comenta, o maior problema do automobilismo brasileiro é a falta de união. E com isso o esporte vai capengando, se aguenta como pode por estas terras tupiniquins.

    • Roaddie,

      O atual presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo fez um trabalho magnífico: ninguém fez mais que ele para estigmatizar a entidade como algo ineficiente e prejudicial ao esporte. E quem paga são os apaixonados, os entusiastas e os otimistas de plantão. Por pior que seja a obra de Cleyton Pinteiro (no comando por mais alguns dias…), dói ainda mais notar a desunião de pilotos, equipes e preparadores frente à possibilidade do um afilhado político, Waldner Bernardo, dê continuidade a esse tormento. Enquanto isso, cabeças pensantes e atuantes como as de Antonio Hermann são afastadas do sistema pela ganância e vaidade dos que se aproveitam da passividade de suas tribos.

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